Full Text Archive logoFull Text Archive — Free Classic E-books

Lendas do Sul by J. Somoes Lopes Netto

Part 2 out of 2

Adobe PDF icon
Download this document as a .pdf
File size: 0.1 MB
What's this? light bulb idea Many people prefer to read off-line or to print out text and read from the real printed page. Others want to carry documents around with them on their mobile phones and read while they are on the move. We have created .pdf files of all out documents to accommodate all these groups of people. We recommend that you download .pdfs onto your mobile phone when it is connected to a WiFi connection for reading off-line.

O NEGRINHO DO PASTOREIO

Naquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem
divisas nem cercas; somente numas volteadas se apanhava uma gadaria
chucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos...

Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de
onças e meias doblas e mais muita prataria; porém era muito cauíla
e muito mau, muito.

Não dava posada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no
inverno o fogo de sua casa não fazia brasas, as geadas e o minuano,
podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a
sombra dos seus umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora
bebia água das suas cacimbas.

Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de boa
vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de
conchavar-se com ele, porque só dava para comer um churrasco de
tourito magro, farinha grossa e erva caúna e nem um naco de fumo...
e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira que parecia que
era o seu próprio couro que ele estava lonqueando...

Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino
cargoso como uma mosca, para um baio de cabos negros, que era o seu
parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito
bonitinho e preto como carvão e a quem todos chamavam
somente o —Negrinho.

A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia
afilhado da Virgem, Senhora nossa, que é a madrinha
de quem não a tem.

Todas as madrugadas o Negrinho galopeava parelheiro; depois conduzia
aos avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino,
que o judiava e se ria.

***

Um dia, depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreia com um
seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro
que não, que não! que a parada devia ser do dono do cavalo que
ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada,
mil onças de ouro.

No dia aprazado, na cancha da carreira havia gente
como em festa de santo grande.

Entre os dois parelheiros a gauchada não sabia se decidir, tão
perfeito era e bem balançado cada um dos animais. Do baio era fama
que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas
crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não se lhe viam as
patas baterem no chão... E do mouro era voz que quanto mais cancha,
mais agüente, e que desde a largada ele ia ser como um laço
que se arrebenta...

As parcerias abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam
aperos contra rebanhos e redomões contra lenços.

— Pelo baio! Luz e doble!...

— Pelo mouro! Doble e luz!...

Os corredores fizeram suas partidas à vontade e depois as obrigadas;
e quando foi a última na última, fizeram ambos sua senha e se
convidaram. E amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os
parelheiros menando cascos, que parecia uma tormenta...

— Empate! Empate! gritavam os aficionados ao longo da cancha por
onde passava a parelha veloz, compassada como n’uma colhéra.

— Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora! gemia o Negrinho. Se o
sete léguas perde meu senhor me mata! Hip! hip! hip!...

E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio.

—Se o corta-vento ganhar é só para os pobres! retrucava o outro
corredor. Hip! hip!

E cerrava as esporas no mouro.

Mas os fletes corriam compassados como numa colhéra. Quando foi na
última quadra, o mouro vinha arrematado e baio vinha aos tirões...
mas sempre juntos, sempre emparelhados.

E a duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de
sopetão, pôs-se em pé e fez uma cara-volta,, de modo que deu ao
mouro tempo mais que preciso para passar, ganhando de luz aberta! E
o Negrinho, de em pelo, agarrou-se como um ginataço.

—Foi mal jogo! gritava o estancieiro

—Mau jogo! secundavam os outros da sua parceria.

A gauchada estava dividida: mais de um toreana coçou o punho da
adaga, mais de desapresilhou a pistola, mais de um virou as esporas
para o peito do pé... Mas o juiz, que era um velho do tempo da
guerra de Sapé-Tiaraiú, era um juiz macanudo, que já tinha visto
muito mundo. Abanado a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem.

—Foi na lei! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio,
ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem
gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei!

Não havia o que alegar. Despeitado e furioso o estancieiro pagou a
parada, à vista de todos atirando as mil onças de ouro sobre o
poncho do seu contrário, estendido no chão.

E foi um alegrão por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou
distribuir tambeiros e leiteiras, covados de baetas e baguais e deu
de resto, de mota, ao pobrerio. Depois as carreiras
seguiram com os changueiros que havia.

***

O estancieiro retirou-se para sua pobre casa e veio pensando,
pensando, calado, em todo caminho. A cara dele vinha lisa, mas o
coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado e meia
espalda... O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.

E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos
pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.

Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha
falou assim:

— Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta
dias ficarás aqui pastoreando a minha tropilha de tordilhos
negros... O baio fica de piquete na soga e tu ficarás de estaca!

O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando.

Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho,
varado de fome e já sem força nas mãos, enleiou a soga num pulso e
deitou-se encostado a cupim.

Vieram então as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar e
todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E
uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem
barulho nas asas.

O Negrinho tremia, de medo... porém de repente pensou na sua
madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu.

E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o
Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três Marias; a
estrela d’alva subiu... Então vieram os guaraxains ladrões e
farejaram o Negrinho, e cortaram a guasca da soga. O baio sentindo-
se solto rufou a galope, e toda tropilha com ele, escaramuçando no
escuro e desaguaritando-se nas canhadas.

O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram,
dando berros de escárnio.

Os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se
enxergava: era a cerração que tapava tudo.

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

***

O menino malévola foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não
estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos
pulsos a um palanque e dar-lhe uma surra de relho.

E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o
perdido. Regulando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua
madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de
vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo.

Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas
restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando
cera benta no chão: e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram
tantas que clareavam a terra e as manadas chucras não disparavam...
Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos
relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por
diante a tropilha, até coxilha que o seu senhor lhe marcara.

E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu...

Gemendo, gemendo, o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo
instante apagaram-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua
madrinha, o negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas
agoureiras nem os guaraxains ladrões; porém pior do que os bichos
maus, ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou
os cavalos, que se dispersaram, disparando campo fora, retouçando e
desguaritando-se nas canhadas.

O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai
que os cavalos não estavam lá...

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

***

O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um
palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho... dar-lhe até ele
não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo
escorrendo do corpo... O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e
Nossa Senhora, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma
música, e pareceu que morreu...

E como já e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o
estancieiro mandou atirar o corpo do Negrinho na panela de um
formigueiro, que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o
sangue e os ossos... E assanhou bem as formigas; e quando elas,
raivosas, cobriram todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-lo,
é que então ele se foi embora, sem olhar para trás.

Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e
que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes
mil onças de ouro... e que tudo isto cabia folgado dentro de um
formigueiro pequeno...

Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros
e a casca das frutas.

Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto.

E três dias houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o
mesmo sonho.

***

A peonada bateu o campo, porém ninguém achou a tropilha
e nem rastro.

Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava
do corpo escravo.

Qual não foi o seu grande espanto, quando chagado perto, viu na boca
do formigueiro o Negrinho de pé com a pele lisa, perfeita, sacudindo
de si as formigas que o cobriam ainda!... O Negrinho, de pé, e ali
ao lado o cavalo baio e ali junto, a tropilha dos trinta
cordilhos... e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho,
o estancieiro viu a madrinha dos que não a tem, viu a Virgem, Nossa
Senhora, tão serena, posada na terra, mas mostrando que estava no
céu... Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.

E o negrinho, sarado e risonho, pulando de em pelo e sem rédeas,
no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.

E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não
chorou, e nem se riu.

***

Correu no vizindário, a nova do fadário e da triste morte do
Negrinho, devorado na panela do formigueiro.

Porém logo, de perto e de longe, de todos os rumos do vento,
começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo...

E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas
dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que
cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas,
mascates e carreteiros, todos davam notícia — da mesma hora — de
ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de
tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pelo,
em um cavalo baio!...

Então, muitos acenderam velas e rezaram o Padre-nosso pela alma do
judiado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o
que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só
entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar
a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o remiu e
salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia,
sem ninguém ver.

***

Todos os anos, durante três dias, o Negrinho desaparece: está metido
em algum formigueiro grande, fazendo visita às formigas, suas
amigas; a sua tropilha esparramava-se; e um aqui, outro por lá, os
seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias. Mas ao nascer do
sol do terceiro dia, o baio relincha perto do seu ginete; o Negrinho
monta-o e vai fazer a sua recolhida; é quando nas estâncias acontece
a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e não vê ninguém,
nem na ponta, nem na culatra.

***

Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho,
sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as
restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas
e desce às canhadas.

O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de
jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto
de vela, cuja luz ele leva para o altar da Virgem Senhora,
madrinha dos que não a têm.

Quem perder suas prendas nos campos, guarde a esperança: junto de
algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o
Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo — Foi por aí que eu perdi...
Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi!...

Se ele não achar... ninguém mais.

*ARGUMENTO DE OUTRAS LENDAS MISSIONEIRAS E DO CENTRO E NORTE DO
BRASIL.*

*MISSIONEIRAS*

*1*
*A mãe do ouro*

O que é hoje serra de pedra já foi gente vivente: foi gente num
tempo antigo, e por um castigo do céu, escureceu de repente e caída
ficou onde estava...

Onde estavam sozinhos ficaram serros e serrotes; onde estavam
apinhoscados ficou a serrania encordoada.

E os ossos aí estão acimentados, em pura pedra virados; a carne que
os cobria deu terra negra; os cabelos são os matos, matos que bebem
o sangue, que nos parece a nós apenas cascatinhas e vertentes; os
lugares ocados que aparecem são os buracos do seu corpo, da sua boca
e olhos, do seu nariz e ouvidos... As veias deram em ferro, e os
nervos, como parte delicada, viraram-se ouro e são os veeiros
amarelos que se entranham por aí abaixo, adentro da crosta, tal e
qual os nervos estão entranhados na carnadura da gente.

Mas o que governa tudo, que não se sabe o que é, que é a Alma, que
não morreu, essa é que é a Mão do Ouro, porque ela não entrou no
castigo, e que defende os nervos dos castigados, os veeiros da
fortuna, para que no dia do Perdão cada um ache o que seu é...

Aí está porque, quando troveja, tantos raios caem sobre sobre certos
serros e tanto ventarrão esbarra neles:... é a Mãe do Ouro
que chama socorro...

Às vezes rebenta um serro destes com estrondo grande; se é de noite,
no fogo que se vê sair, vai a cuidadeira de mudança para outro; se é
de dia, é sempre no pino do meio dia, e na luz do sol que encandeia
os olhos, apenas sente-se o rumo que ela toma, só o rumo, mas não o
lugar novo em que ela vai fazer morada nova.

*2*
*Serros Bravos*

Dos mortos por seu castigo, alguns não ficaram bem mortos
e ainda estrebucham, curtindo dores.

E como ainda estão meio vivos, quando algum vivente quer tirar para
sua cobiça o ouro — que é os seus nervos e que doem — os Serros,
esses, enfurecem-se, e por força de encantamentos somem-se, rasos,
ou atiram de uns para outros, temporais tão medonhos, que eriçam o
cabelo e prendem o passo dos homens, mesmo os mais desabusados.

E se eles teimam, morrem.

*3*
*A casa de M’bororé*

Dentro do mato grosso, mato velho e crescido, sem plantas pequenas
dentro, aí, só há uma luz pouca, tirante a verde e a cinzento: e
nenhuma árvore faz sombra, porque a ramaria de todas faz peneira
por onde passa o sol, que nunca enxerga o chão...

Dentro desse mato, no mais tupido dele, há uma lombada redonda, como
uma casca de caramburé; aí, em cima dela, há uma casa de pedra
branca, branca como se encaliçada, e sem porta em nenhum lado nem
janela em nenhuma altura.

Dentro da casa branca as salas estão lastradas de barras de ouro e
barras de prata, do peso que é preciso dois homens para mover cada
uma; e todas as juntas das pilhas estão tomadas de poeiras finas...

Por cima de tudo estão, em montes, tocheiros de ouro maciço e
cálices e resplendores de santos; e salvas de prata
e turíbulos e cajados.

Nos corredores, como prontos para içar para as cangalhas das mulas
de carga, prontos, com as suas alças, estão lotes de surrões,
socados de moedas de ouro, separadas em porções, metidas
em bexigas de rês...

O rondador da casa branca anda dia e noite em redor dela; é um índio
velho, cacique que foi, M’bororé, de nome, amigo dos santos padres
das Sete Missões da serra que dá vertentes para o Uruguai.

Os padres foram tocados p’ra longe, levando só a roupa do corpo...
mas a casa branca já estava feita, sem portas nem janelas... e
M’bororé, que sabia tudo e era cacique, de noite, e precatado, com
os seus guerreiros, carregou de todos os lugares para aquele as
arrobas amarelas e as arrobas brancas, que não valiam a caça e a
fruta do mato e a água fresca, e pelas quais os brancos de hoje
matavam os nascidos aqui, e matavam-se uns aos outros.

M’bororé desprezava essas arrobas; mas como era amigo dos santos
padres das Sete Missões, guardou tudo e espera por eles, rondando a
casa branca, sem portas nem janelas.

Ronda e espera...

*4*
*Zaorís*

Nosso Senhor Jesus Cristo Louvado Seja Para Sempre! Amém!

Ele foi preso na quarta-feira, sentenciado na quinta
e crucificado na sexta.

E neste mesmo dia de sexta-feira, houve no Céu o julgamento dos
carrascos de Nosso Senhor, e logo desceu à Terra o arcanjo S. Miguel
com a ordem de castigar aos judeus; e o arcanjo passou essa ordem
aos anjos que estavam de guarda à Cruz, onde Nosso Senhor estava
pregado e morto.

Enquanto S. Miguel esteve na Terra deixou sobre ela muito brilho da
sua couraça de couro e das suas armas, e muita ventania das
suas asas de prata.

A gente já nascida estava condenada, pelo pecado de ter maltratado e
morto Jesus Cristo. Mas as crianças ainda não nascidas não podiam
sofrer castigo, porque não tinham culpa alguma. Porém os anjos da
guarda da Cruz não sabiam disso e iam castigá-los da mesma forma,
porque o arcanjo S. Miguel esquecera-se de avisar sobre as crianças
que nascessem naquela dia, que era justamente o da sentença de Deus.

Por isso, a Virgem Maria, que sabia do esquecimento de S. Miguel, em
memória Jesus não deixou os anjos da guarda da Cruz castigarem as
crianças nascidas nessa Sexta-feira, e então, para diferenciá-las
das outras, fez um milagre: e mandou que a ventania das asas de
prata do arcanjo ventasse sobre o olhos dos que fossem nascendo
nesse dia santo, e ao brilho das armas de ouro,
que brilhasse sobre eles.

E desse jeito todos ficaram assinalados e puderam ser diferenciados
dos nascidos na véspera, e bem diferençados, porque podiam ver
através a água até o seu fundo e através as muralhas e montanhas
até o outro lado delas, porque tudo ficou transparente para eles.

E como a Virgem Maria não disse que subisse outra vez ao céu a
ventania das asas de prata do arcanjo nem o brilho das suas armas de
ouro, esse dons ficaram na terra, e em todas as sextas-feiras santas
procuram os olhos das crianças recém-nascidas, que então ficam com o
dom de ver no escuro e através qualquer parede de pedra,
madeira, ou ferro...

Para esses, nada existe escondido ou enterrado que seus olhos não
vejam, como os dos outros homens, de dia claro; e isso porque
nasceram em sexta-feira santa: os Zaorís...*

* Em relação ao argumento destas lendas — 1. 4 — reportamo-nos ao
raciocinado estudo do Sr. Pe. C. Teschauer sob o título — Lenda do
Ouro — (Rev. do Instº. do Ceará, tom. XXV-1911).

*5*
*O Angoéra*

O Angoéra, enquanto foi pagão, chamava-se desse nome; era um índio
grande, forçudo e valente; mas era triste, carrancudo e calado.

Quando os Padres de Jesus, entraram no sertão da serra, corridos que
vinham doutro rumo, foi Angoéra, o tapejara, que conduziu sem erro a
companhia; e quando os padres sentaram pouso, batizou-se.

E foi padrinho M’bororé, que era cacique e já amigo, muito, dos
padres. O nome de Angoéra, pagão, ficou sendo Generoso,
nome cristão.

E foi como cobra que deixa a casca...

Angoéra, que era triste, deixou a casca da tristura, e como
Generoso, nome bento ficou prazenteiro.

E ajudou a botar pedra no alicerce de todas as igrejas dos Sete
Povos. E durou anos, esse ofício!... E ele sempre risonho
e cantador.

Um dia, chamou o padre-cura, confessou-se e foi ungido
de óleo santo e morreu.

Generoso morreu contente, pois a cara do seu cadáver guardou ar de
riso; e foi muito chorado, porque tinha a estima de todos, por ser
mui prazenteiro e brincador.

De forma que a sua alma saiu-lhe do corpo, de jeito alegre; e então,
invisível, entrava nas casas dos conhecidos, passeava nos quartos e
salas, e para divertir-se fazia estalar os forros do teto e os
barrotes do chão, e também os trates novos, e os balaios de vime
grosso; e se achava dependurada uma viola, fazia sonar o
encordoamento, para alegrar-se com a lembrança das suas cantigas, de
quando era vivo e cantava...

Outras vezes assobiava nas juntas das portas e janelas, espiando por
elas os moradores da casa; e quando os homens, rodeavam a candeia,
pitando, ou as crianças, brincando, ou as donas costuravam ou faziam
nhanduti, o Generoso, — a alma dele, p’r’o caso — soprava
devagarzinho sobre a chama da luz, fazendo-a requebrar-se e
balançar-se, que para a sombra das cousas também mudar
de estar quieta...

E muitas vezes — até o tempo do Farrapos —, quando se dançava o
fandango nas estâncias ricas ou a chimarrita nos ranchos do
pobrerio, o Generoso intrometia-se e sapateava também, sem ser
visto; mas sentiam-lhe as pisadas, bem compassadas no rufo das
violas... e quando o cantador do baile era bom e pegava bem de
ouvido, ouvia, e por ordem do Generoso repetia esta copla, que ficou
conhecida como marca de estância antiga: sempre a mesma...

“Eu me chamo Generoso,
“Morador em Pirapó:
“Gosto muito de dançar
“Co’as moças de paletó...”

.............................................................

*6*
*Mãe mulita*

— O tatu, mais a mulita,
— É lei da sua criação:
— Sendo macho, não pode ter irmã;
— Sendo fêmea, não pode ter irmão.
_(Cancioneiro Guasca.)_

Este bicho foi mandado ficar assim desde que o rei dos judeus mandou
matar duas mil crianças e a Virgem Maria fugiu para o Egito, para
salvar o Menino Jesus, fugindo num carro pequeno,
puxado por um burro petiço...

A certa altura do caminho a comitiva foi alcançada por uma comitiva
do rei, com ordem de matar o Menino e algemar seus pais; porém Nossa
Senhora, com os seus rogos e lágrimas conseguiu abrandar o centurião
que comandava; e deu-lhe de presente, o burro.

Depois a Virgem Maria e S. José, com muito custo, lá foram
empurrando o carro onde ia dormindo, muito sossegado, o Menino
Jesus. E foram andando... andando... andando...

A escolta já ia seguir seu caminho, de volta, porém parou, porque o
burro tinha-se empacado... Embalde o centurião chicoteou o animal;
depois bateu-lhe com o pau da lança; depois com a bainha do espadão;
nada!... o burro, sempre empacado!...

Os soldados todos, um por um, espancaram-no: o burro,
sempre empacado!...

Todos os soldados juntos e ao mesmo tempo, espancaram-no; o burro
sempre empacado!...

Então o centurião ficou furioso, dizendo-se enganado pela Virgem,
que lhe dera tão ruim animal. E resolveu perseguir e prender os
fugitivos, para seu castigo.

A Virgem e S. José não viram o que atrás deles se passava, somente
ouviam o rumor das pancadas que os soldados davam no burro e as
blasfêmias do centurião... E assustados, apuravam as forças,
empurrando o carrinho.

Então o Menino Jesus acordou-se e teve fome; mas com muito cansaço e
sofrimentos, o seio de Maria não apojou...

Ele chorava, de pesar... e o Menino pegou a chorar, de fome...

Nisto apareceu uma mulita e Nossa Senhora disse-lhe:

— Mulita, se tens filhos, dá-me uma gota do leite para o meu
filho!...

E a mulita parou-se e deu a gota de leite; mas era muito pouco
e o Menino continuou chorando, com fome...

Nossa Senhora chorou de pesar e tornou a dizer:

— Mulita, chama tuas filhas, para cada uma dar uma gota de leite
para o meu filho!...

— Senhora Virgem, respondeu a mulita, minha ninhada é grande, porém
nele as filhas são poucas...

E chamou as suas poucas filhas, e cada uma deu uma gota de leite
para acalmar a fome do Menino, que calou-se, farto.

Depois cada mulitinha tomou seu rumo, no deserto; só ficou
a mulita mãe, acompanhando.

Quando iam já muito longe, avistaram a escolta que vinha em
sua perseguição; e à frente, ameaçador, o centurião!...

Então a Virgem, muito aflita, disse:

— Mulita, dá-me a tua força, para puxar o carro do meu filho!...

E a mulita puxou; mas era tão pouca sua força, que o carro quase
nada adiantava.

E a escolta cada vez mais perto!...

E Nossa Senhora chorou, de medo, e tornou a dizer:

— Mulita, chama os teus filhos, para darem a sua força e correrem,
puxando o carro do meu filho!...

— Senhora Virgem, respondeu a mulita, a minha ninhada é grande,
porém nela os filhos são poucos...

E chamou os seus poucos filhos, que começaram a correr, puxando
o carrinho, do Menino Jesus...

E a escolta cada vez mais perto!...

Mas o carro, agora puxado pelos filhos da mulita ia
sempre andando depressa.

Mas os cavalos são maiores que as mulitas e por isso vencem mais
terreno... e já a escolta estava perto... perto..., quando levantou-
se um medonho temporal de areia, que obrigou e o centurião a
dispersarem-se entre gritos de raiva...

Então, quando viram que o Menino estava salvo, cada mulitanho tomou
seu rumo no deserto; só ficou a mulita mãe, acompanhando.

Então Nossa Senhora tornou a dizer:

— Mulita, em memória das gotas de leite das tuas filhas, em memória
da força dos teus filhos, deste dia em diante, de cada vez que deres
ninhada, será sempre ou só de fêmeas ou só de machos!...

E a mulita respondeu:

— Pois que assim seja a vossa vontade, Senhora Virgem! Porém eu
peço que ordeneis que o mesmo seja para a minha boa comadre, a
tatua...

— Pois será, também!

Então a mulita tomou seu rumo, no deserto, e foi levar a nova a sua
comadre tatua, que ficou muito contente...*

* O argumento destas duas lendas — 5, 6 — está desenvolvido
baseado na tradição longínqua, e é de notar a acomodação bizarra dos
elementos do seu entrecho.

*7*
*São Sepé*

“*Arroio S. Sepé* — no município de Caçapava; nasce a coxilha de
Babiroquá e deságua no Vacacaí. *Deve o nome, que lhe foi posto
pelos Jesuítas, ao célebre chefe índio José Tiaraiú, conhecido por
Sepé*, vencido e morto na batalha de 7 de fevereiro de 1756, no sopé
da Coxilha de Sta. Tecla, perto de Bagé.

Era à margem deste arroio que existia a sepultura do referido índio,
indicada por uma grande cruz de madeira, com uma inscrição — *meio
em latim, meio indiático* —, que quer dizer o seguinte:

† Em Nome de Todos os Santos †
No ano de Cristo Jesus de 1756
A 7 de Fevereiro
morreu combatendo
O grande chefe guarani Tiaraiú
em um sábado santo
† Subiu ao Céu dias antes do que †
o grande chefe da taba do Uruguai que morreu
em 10 de fevereiro em quarta-feira
combatendo contra um exército
de 15000 soldados.
† Aqui enterrado †
A 4 de Março
mandou levantar-lhe esta cruz
o padre D. Miguel
Descansa em paz

“Conforme a homenagem
prestada pelos Jesuítas
na inscrição e na
denominação do arroio, e
não havendo no calendário
católico santo de nome —
Sepé — temos de concluir
que as virtudes, o mérito
do grande chefe índio
foram forais para a sua
estranha — canonização —
no entretanto perdurável e
popularizada.

Foi sob tal aspecto que
recordamos aqui este curioso fato
........................”
_(Cancioneiro Guasca)_.

-------------------------------------------------------------

*O Lunar de Sepé*

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra...
Em nome da paz não vem!

Mandaram por serra acima
Espantar os corações;
Que os Reis Vizinhos queriam
Acabar com as Missões,
Entre espadas e mosquetes
Entre lanças e canhões!...

Cheiravam as brancas flores
Sobre os verdes laranjais;
Trabalhavam-se na folha
Que vem dos altos ervais;
Comia-se das lavouras
Da mandioca e milharais.

Ninguém a vida roubava
Do semelhante cristão
Nem a pobreza existia
Que chorasse pelo pão;
Jesus Cristo era contente
E dava sua benção...

Por que vinha aquele mal,
Se o pecado não havia?
O tributo se pagava
Se o vizo-rei pedia,
E, até sangue se mandava
Na gente moça que ia...

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham,
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra...
Em nome da paz não vem!

Os padres da encomenda
Faziam sua missão:
Batizando as criancinhas,
E casando, por união,
Os que juntavam os corpos
Por força do coração...

Do sangue dum grão Cacique
Nasceu um dia um menino,
Trazendo um lunar na testa,
Que era bem pequenino:
Mas era — cruzeiro — feito
Como um emblema divino!...

E aprendeu as letras feitas
Pelos padres, na escritura;
E tinha por penitência,
Que a sua própria figura
De dia, era igual às outras...
E diferente, em noite escura!...

Diferente em noite escura,
Pelo lunar do seu rosto,
Que se tornava visível
Apenas o sol era posto;
Assim era — Tiaraiú —,
Chamado — Sepé, — por gosto.

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra...
Em nome da paz não vem!

Cresceu em sabedoria
E mando dos povos seus;
Os padres o instruíram
Para o serviço de Deus
E conhecer a defesa
Contra os males do ateus...

Era moço e vigoroso,
E mui valente guerreiro:
Sabia mandar manobras
Ou no campo ou no terreiro;
E na cruzada dos perigos
Sempre andava de primeiro.

Das brutas escaramuças
As artes e artimanhas
Foi o grande Languiru
Que lh’ensinou; e as façanhas,
De enredar o inimigo
Com o saber das aranhas...

E, tudo isto, aprendia;
E tudo já melhorava,
Sepé — Tiaraiú, chefe
Que o Sete Povos mandava,
Escutado pelos padres,
Que cada qual consultava.

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra...
Em nome da paz não vem!

E quando a guerra chegou
Por onde os Reis de além,
O lunar do moço índio
Brilhou de dia também,
Para que os povos vissem
Que Deus lhe queria bem...

Era a lomba da defesa,
Nas coxilhas de I-bagé,
Cacique muito matreiro
Que nunca mudou de fé;
Cavalo deu a ninguém...
E a ninguém deixou de a pé...

Lançaram-se cavaleiros
E infantes, com partazanas,
Contra os Tapés defensores
Do seu pomar e cabanas;
A mortandade batia,
Como ceifa de espadanas...

Couraças duras, de ferro,
Davam abrigo à vida
Dos muitos, que, assim fiados,
Cercavam um só na lida!...
Um só, que de flecha e arco,
Entra na luta perdida...

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra...
Em nome da paz não vem!

Os mosquetes estrondeam
Sobre a gente ignorada,
Que, acima do seu espanto,
Tem a vida decepada...;
E colubrinas maiores
Fazem maior matinada!...

Dócil gente, não receia,
As iras de Portugal:
Porque nunca houve lembrança
De haver-lhe feito algum mal:
Nunca manchara seu teto...;
Nunca comera seu sal!...

E de Castela tampouco
Esperava tal furor;
Pois sendo seu soberano,
Respeitara seu senhor;
Já lhe dera ouro e sangue,
E primazia e honor!...

A dor entrava nas suas carnes...
Na alma, a negra tristeza,
Dos guerreiros de Tiaraiú,
Que pelejavam defesa,
Porque o lunar divino
Mandava aquela proeza...

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra...
Em nome da paz não vem!

E já rodavam ginetes
Sobre os corpos dos infantes
Das Sete Santas Missões,
Que pareciam gigantes!...
Na peleja tão sozinhos...
Na morte tão confiantes!...

Mas, o lunar de Sepé
Era o rastro procurado
Pelos vassalos dos Reis,
Que o haviam condenado:...
Ficando o povo vencido...
E seu haver... conquistado!

Então, Sepé, foi erguido
Pela mão do Deus — Senhor,
Que lhe marcara na testa
O sinal do seu penhor!...
O corpo ficou na terra...
A alma, subiu em flor!...

E subindo para as nuvens,
Mandou aos povos — benção!
Que mandava o Céus — Senhor
Por meio do seu clarão...
E o — lunar — da sua testa
Tomou no céu posição...

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra...
Em nome da paz não vem!

Esta melopéia (?), ouvi-a em 1902, sofrivelmente recitada por uma
velhíssima mestiça — Maria Genoria Alves — moradora na picada que
atravessa o rio Camaquã, entre os municípios de Cangussu
e Encruzilhada.

Aparte as deturpações aberrantes dos vocábulos e a difícil
colocação, concatenada dos versos, conservei a forma original,
difusa, opaca e, do mesmo passo ingênua e amorável, dentro da qual
porém, sente-se que estremece uma idealização, tendente a aureolar a
figura do chefe índio, superiorizando-a por um signo misterioso — o
lunar —, mandado divino...

Deixei de parte alguns versos cujo sentido disforme e expressão eram
de impossível entendimento e acomodação neste grupo. Relembrança
popular do heróico guarani é esta (e procedência?...) a única que
até hoje hei encontrado em não pequena perambulação.

*8*
*O Caapora*

É um espírito com forma de homem, gigante, peludo e muito tristonho,
que comanda as varas de porcos do mato e anda sempre montado
sobre um deles.

Quem topar com o Caapora daí em diante arrastará consigo a
infelicidade (caiporismo), para todo o resto da sua vida;
se era bom torna-se mau caçador, pescador; dará topadas no caminho,
espinhar-se-á nas roçadas, perderá objetos,
andará atrasado, apoquentado...

Os animais domesticados também sentem a sua má influência, e
entecarão, terão gogo, sofrerão bicheiras... No entanto o Caapora
protege a caça bravia dos matos.

*9*
*O Curupira*

É o espírito malfazejo do mato, que enreda os trilhos do caminho
para enganar os andantes e sugar-lhes o sangue.

Andam sempre em casal e moram no oco dos paus de lei; aparecem
de repente, fazem os seus embustes e escondem-se, à tocaia,
rindo-se em silêncio.

O Curupira é como um tapuio pequeno; tem os dentes verdes
e os pés colocados às avessas.

Quando perseguido pelo curupira, o melhor meio de fugir-lhe é
atirar-lhe e ir deixando pelo caminho cruzes e rodilhas de cipó,
entrançadas; ele entretém-se a examinar o achado e a destrançá-lo,
e enquanto isso, o perseguido escapa-se.

*10*
*O Saci*

Era um caboclinho, dum pé só, muito ágil, que saltava na garupa dos
cavalos dos viajantes. Gostava das picadas e das encruzilhadas das
estradas sombreadas. Outros diziam que o Saci, apenas era manco de
um pé e tinha uma ferida em cada joelho; que usava um barrete feito
das _marrequinhas_ (flores da corticeira), e que era ele que
governava as moscas importunas, as mutucas, os mosquitos.

*11*
*A Oiára*

“A Oiára — ou Mãe-d’água — é um demônio macho-fêmea dos rios. É um
tapuio ou tapuia de rara beleza, morador do fundo dos rios ou lagos,
e que fascina aquele que cai em seu poder, induzindo a pessoa
fascinada a lançar-se n’água. O indivíduo fascinado pelas Oiáras, se
não chega afogar-se, ao ser retirado da água, declara ter visto
palácios encantados, no fundo do rio, tendo sido acompanhado nesse
passeio por uma bela mulher (se é homem, e por dois
belos tapuios se é mulher).

Ao voltar à terra as Oiáras o soltam e de novo vão para o rio, mas
deixando em seu lugar pequenos tapuios para guardar o enfermo. Estes
pequenos tapuios devem impedir que outros espíritos
se apoderem da vítima.”

*12*
*O Jurupari*

É um espírito mau, que à noite aperta a garganta das crianças e até
dos homens, para trazer-lhes aflição e maus sonhos, principalmente
por haverem comido muito antes de se deitarem. É ele que faz
o _pesadelo_ nas criaturas.

*13*
*O Lobisomem*

Diziam que eram homens que havendo tido relações com as suas
comadres, emagreciam; todas as sextas-feiras, alta noite, saíam de
suas casas transformados em cachorro ou porco, e mordiam as pessoas
que tais desonras encontravam; estas por sua vez ficavam sujeitas a
transformarem-se em lobisomens...

*14*
*A Mula sem cabeça*

Diziam que as mulheres de má vida, relacionadas com padres, se
transformavam, tarde da noite, em mula, sem cabeça, e conduzindo na
cauda um facho de fogo, que nenhum vento ou chuva apagava antes de
romperem as barras do dia...

*15*

A lenda referente aos — enterros — (dinheiro, jóias, baixelas
enterradas) tem a sua origem na crença das almas do outro mundo —
os espíritos — “A alma de quem morreu sem deixar notícias do
dinheiro que tinha escondido ou guardado em tal e tal lugar, anda
penando. As luzes azuladas que se observam de noite nos campos e em
redor das povoações, que volteiam e afinal se desvanecem,
não são senão almas penadas.

“Só quando um cristão descobrir o — enterro — é que hão de cessar
de aparecer e de penar”

Se o — enterro — está da habitação ouve-se ruídos, pancadas,
gemidos... são as casas — mal assombradas. —

***

A lenda da — Lagoa brava — é apenas uma variante da dos Serros
bravos e tem a sua contextura na da Oiára. A da lagoa do Iberá, bem
como a dos salamanqueiros, do nhandu — tatá e outras, são mais do
acervo rio-platense-andino.

***

Há ainda, de formação local, muitas _histórias_ ingenuíssimas e
curiosas, tais como a dorme-dorme (ave vespertina); porque a pomba
não sabe fazer seu ninho; porque a capivara é rabona (sem cauda); a
do anu, ladrão do ninho alheio; a do João barreiro, e outras muitas,
para adormecer crianças...*

* O argumento das lendas desta série — 8, 14 — consta do livro —
Cancioneiro Guasca — do autor. (Edit. Echenique & C. — 1910) A sua
versão e influência correram, aliás mui fracamente entre as gentes
antigas da campanha rio-grandense.

Book of the day: